*"Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, e os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono."
Nós escrevíamos porque acreditávamos, no fundo, na força da palavra que tinha o poder de mudar o mundo - ou só mais um dia qualquer na existência de um qualquer na terra. As palavras doces e escassas refletiam sobre a brisa da manhã paulista, entre sonhos e pertubações matinais em meio a um café e outro cigarro que de tão habituais haviam perdido seu gosto especial. Enquanto isso te escrevo, Ana, como um mantra angelical que roda os dedos das mãos fazendo-me pensar em sentenças pouco poéticas. Livros com o teu nome na estante, algumas fotos sobre a cabeceira, espero que tu não acha um tanto invasivo minha pré disposição para dizer das coisas sutis até as mais fúnebres.
Sonhei com teus cachos nessa madrugada em meio a pesadelos habituais, tomávamos um chá e discutíamos alguma coisa daquelas bem simples, como algum filme bobo e nonsense do Woody Allen. Não sei onde você estaria ou o que tivesse feito, mas lembro desse sorriso que invadia quaisquer discussões. Hoje me disseram sobre meu timbre de voz parecer com o teu, talvez seja real. Dizem que herdamos características físicas daqueles que amamos e poucas coisas fazem menos sentido que essa teoria, na verdade. Mas te escrevo, aqui, para dizer o que não posso dizer-te em um dia frio entre um chá e bolachas de cereais. Gostaria que você soubesse que meu coração bate forte e triste todas as vezes que vou em sétimos andares porque penso que eles, só eles, são os verdadeiros vilões.
E todas as vezes que entro paro e olho os dois quartos vazios, penso nas coisas que ficaram ali estagnadas em cada canto coberto pelo concreto e azulejos. Não existem mais máquinas, mais ócio ou conversas infernais. O quartos vazios me tornam mais próxima e, consecutivamente, cada vez mais dentro de ti.
Recito sozinha em meio essa esfera sem fim: Se isso é amor, que arranque cada fio de sanidade e construa teias ilesas entre os parâmetros da loucura.
*Poema da Ana C.

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