"Eu não te amo mais."


“Eu não te amo mais” disse sentada naquele sofá verde que você gostava, acendendo o cigarro que mais te incomodava o cheiro e olhando dentro dos teus olhos fundos e verdes, “Eu não te amo mais”. Pareceu ignorância, falta de jeito ou histeria, mas não era, você sempre gostou de dar termos psicológicos a cada uma das minhas frases, mas agora elas tinham um sentido literalmente particular que não poderia ser descrito em um daqueles termos que Freud usa para designar uma neurose familiar ou Jung usaria para definir uma particularidade negra. Enquanto pronunciava cada uma dessas palavras dentro de mim causava um calafrio inerte a todas as sensações de ansiedade. Não era raiva e nem ódio pelo simples motivo de eu não conseguia sentir nenhuma dessas coisas despudoradas causadas por algum descontrole, meu corpo já estava anestesiado de qualquer sensação forte e a única coisa que eu conseguia pensar era que“Eu não te amo mais”.

“Eu não te amo mais” e você não sabia como lidar com isso e demonstrava me olhando continuadamente com esses teus olhos cansados e doloridos, como se dentro de você estivesse acontecendo um desastre físico gigantesco, uma queima de tecidos, uma perda de vasos sanguíneos, ou só um coração despedaçado. Mas no fundo, você sabia que não amava também, porque todo o amor foi se diluindo com o tempo, feito a fumaça do meu cigarro em contato com a ventania que rondava a janela naquela hora da madrugada. Você queria dizer algo, mas a fala parecia travada, a garganta ceca e o baseado já havia acabado há mais de três horas, deveria ter passado, tu disse, segurando o choro. Você fazia isso muito bem, aliás,  diariamente suas bochechas ficavam vermelhas e eu nunca conseguia adentrar nesse universo que pareava sobre sua mente. Você perguntou se podia ir embora, porque o carro estava longe, porque a vida havia se tornado uma ruína, um desespero, e todas aquelas coisas que a gente diz quando termina uma oração, “Porque quando tu foi embora não conseguia digerir uma lágrima” e você não tinha mais idade para ficar passeando de madrugada pelas ruas que não eram mais singelas e poéticas, mas uma espécie de Labirinto do Fauno que a obrigatoriedade era causar danos.

Não importa mais, pode ir embora e ter certeza que sua dor ficará permanecida em cada canto da casa, em cada sofá, em cada tapete, naquela quadro da Frida que tu deixou atrás da porta e gostava de ver enquanto fazia carinho no gato. Te ofereci um café, você não aceitou. Agora havia parado de consumir cafeína também, dentre e as outras coisas, então pode ir embora, para sempre. “Eu não te amo mais” repeti pra mim mesma, quando você cruzou a porta, “Eu não te amo mais” disse olhando para a Frida e tudo se acabou como em um filme bonito onde o amor é só mais uma utopia dos deuses.

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