As paredes de Rimbaud.



"As mulheres mais lindas são as mais tristes."

                Ele disse enquanto conversávamos naquela noite onde as luzes da rua brilhavam como nossas emoções transcendentais. 

                "As mulheres mais lindas são as mais tristes, pois elas são mais calmas e obviamente mais sensuais. O silêncio das mulheres tristes para mim diz mais do que muitos atos." 

                Lembrei-me de Madalena, a professora de Literatura do colégio e também a mulher mais linda do mundo, além da mais triste. Sempre tinha cheiro de cigarro, seus cabelos brilhavam sobre a lâmpada da sala de aula, cabelos grisalhos pelo tempo ou pela vida? Ela era nova, convenhamos que não passara da casa dos 30 e vestia lindos vestidos rodados que deixavam suas pernas finas e brancas a mostra. Os alunos diziam que ela havia descoberto uma traição por parte do marido, o filho era viciado em ópio, seu mundo desmoronara após o casamento e nos últimos 15 anos só lia os livros de Virginia Woolf, nada mais. Madalena amava "As Ondas" e por causa desse livro na sua sala de estar havia diversas frases escritas nas paredes. Coisas sobre o amor ou reflexões sobre a vida, nunca existiu mulher mais poética que Madalena, pois tudo nela inspirava poesia e inspirava momentaneamente a tristeza. 

                Quando nos conhecemos, em sala de aula, eu estava no auge de minha adolescência e era obcecado por Rimbaud. O último ano do colégio, eu era um rapaz perdido tanto sobre qual era meu papel no mundo tanto sobre o que eu queria fazer com ele quando o descobrisse. Ela chegou na sala de aula e olhei em seus olhos mais fundo do que poderia olhar nos olhos de alguma mulher. Primeiro foram os bilhetes, as mensagens secretas no meio das dissertações sobre trovadorismo. Um rapaz charmoso literalmente apaixonado e inconsequentemente louco. Depois começaram os convites para cafés, as negações dela por questão de ética que duraram pouquíssimo tempo antes das primeiras saídas, as primeiras transas, os primeiros anseios que rondavam minha mente enquanto acordava, nos domingos de manhã, naquela cama com lençóis brancos que eram os únicos suspeitos de nosso pecado por amor. Não poderia explicar, ela dizia, acendia um cigarro e falava pouco, apenas o bastante. Um dia disse que gostava dos cachos dos meus cabelos loiros e da minha ingenuidade. Eu jogaria o mundo em um poço profundo de sentimentalismo barato para poder ouvir aquela voz doce por todos os dias da minha vida. 

                Depois vieram meus primeiros caos, minhas dúvidas e medos normais de um garoto apaixonado. Madalena era fechada, reclusa, às vezes sumia por semanas e aparecia como se nada houvesse acontecido em sua ausência. Deitava na cama, acendia outro cigarro, falava sobre como foi aquela viagem para o Japão no final do mês onde encontrou no meio da rua a flor mais bonita que já viu em toda sua vida. Depois me despia e passávamos horas juntos sobre a luz de neon da sala de estar com as frases nas paredes, podia ver os gatos e os cachorros dela passeando sobre aquele tapete peludo, os livros da Virginia Woolf na escrivaninha. Um dia, enquanto ela dormia em meus braços, disse bem baixinho:

"Eu te amo como nunca amarei ninguém na vida."

E instantaneamente ouvi a resposta, quase cochichada dela sem abrir os olhos:

"Ninguém é sério aos 17 anos, já dizia Rimbaud. E é nisso que eu acredito eternamente. O que amo é sua falta de seriedade..."

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